domingo, 22 de abril de 2018

A continuidade do Estado do bem-estar

Corrupção e violência fazem parte hoje da agenda do chamado "Estado do bem-estar", cuja construção vem desde 86, com a eleição (aliás, não suficientemente explicada como deveria) para a constituinte e, ao final, a própria Constituição de 88. Lula fez parte deste processo, deu a sua contribuição que hoje só se ampliaria se não insistisse na versão, lamentavelmente, encampada por Boulos, de que não entende nada quem vê na sua prisão apenas uma disputa eleitoral e não um um risco à democracia. O desmonte do projeto do Estado democrático de direito - soberania, cidadania, respeito à dignidade da pessoa humana, ao valor social do trabalho, da livre iniciativa e pluralismo político - vem bem acondicionado, embalado para presente e com cartão manuscrito onde se lê: "a Constituição não cabe mais no PIB".

O risco, que é uma possibilidade, vem de outra fonte, está na expansão de uma direita agressiva e retrógrada, pouco a pouco referência para a insegurança e o medo cotidianos dos que vivemos, por exemplo, na nossa Cidade. 

A corrupção também. Descurada, considerada resquício farisaico que frequenta a mentalidade mesquinha de classe média, vale questioná-la, impondo duvidar da tese da falta de compromisso com a moral de uma ordem que se quer superar. Certo, corruptos são a autoridade e o empresário, cúmplices. Expropriação é outra coisa, quando praticada em favor da hegemonia que libertará o povo brasileiro. 

Creio que, neste ponto, amadurecemos.

SRN


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Invertendo a seta do tempo

O futuro não é mais o destino, como, aliás, já queriam os pós-modernos. O vídeo da Fapesp, cujo link segue abaixo, evidencia uma possibilidade em poucos minutos agradáveis de assistir. Pois muito bem:
O que caracteriza o tempo? O que o define?
Sabemos o que é o tempo, podemos senti-lo, mas falta a definição que só pode vir da física que, adrede, não se recusa.
Entropia – eis a palavra para o fenômeno verificável empiricamente, pelo nosso sentimento, em substituição às palavras que não temos. Entropia é a desorganização, o enfraquecimento, a perda da capacidade de se manter estável. A exposição dá-se em corpos cujas temperaturas sempre passam do calor para o frio, da integridade para a fragmentação. Trata-se de um fenômeno irreversível: um copo de café perde calor, esfria, não volta a esquentar. Após jogá-lo fora, desequilibramos o copo à mesa, cai e, quebrado, não volta a integrar-se a partir dos seus cacos. Entropia.
O sentido do tempo, sempre para o futuro, é explicado, portanto, pela entropia.
Ocorre que, em sistemas microscópicos, formados pelos chamados “spins’, a organização destes elementos pode alterar a passagem habitual da temperatura em contato do quente para o frio. Uma configuração determinada, nesta mesma escala, pode fazer o “spin” frio transferir sua temperatura ao “spin’ quente, invertendo, assim, a linha do tempo, sem alterar, de resto, as leis da termodinâmica.
Observa-se também, em tais condições de laboratório, os "spins" possuindo o dom da ubiquidade, estando em dois lugares ao mesmo tempo. É um problema, sobretudo, se se conseguir resolver a escala e obtidas as condições necessárias, em que, aos "spins", pudéssemos nós, humanos, substituí-los. Na seta invertida do tempo, viajando, poderíamos, com a nossa massa, ocupar dois lugares ao mesmo tempo no espaço? Aí, então, seria, de fato, uma maravilha. Do ponto-de-vista político, estaria cientificamente justificada a cara de pau.

SRN

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Interesse público e o novo ciclo de ouro do petróleo



Um exemplo objetivo do interesse público está na exceção ao princípio da exclusividade em que o legislador, em virtude dos imprevistos da dinâmica da vida aos quais o poder público tem de atender, garante no ano civil do orçamento em execução a contratação de operações de crédito por antecipação de receita.
Reparem a dependência da qualidade, do espírito público do governante. Trata-se justo da parte que cabe ao indivíduo na história a partir das condições dadas.
Um governador pode, por exemplo, antecipar receita dando como garantia a receita futura do seu estado. Aqui, no Rio, um novo ciclo de ouro do petróleo, já se especula o recurso. Significa antecipar dinheiro vendendo o futuro mediante ágio. Isso tem de ser muito bem pensado, considerar relevância, urgência e, sobretudo, capacidade de fazer a melhor operação para o interesse público a ser traduzido em água, esgoto, políticas públicas de educação, saúde e segurança.
A atuação do Ministério Público do estado será cada vez mais bem-vinda.
SRN 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Política pulverizada é opinião


Política pulverizada é opinião, sem os compromissos da prática vinculada a movimentos e partidos. Não se trata de quem a tem na condição de integrante, que pode, no íntimo, discordar, apresentar o que pensa se houver oportunidade, mas é só isso: a militância o espera.
Sempre releio Graciliano. E o trecho adiante está no início de Memórias do Cárcere:
“Tendo exercido vários ofícios, esqueci todos, e assim posso mover-me sem nenhum constrangimento. Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos. (...). Posso andar para a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas, saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares conhecidos.”
SRN



segunda-feira, 16 de abril de 2018

O engodo da antipolítica


A antipolítica nem sequer é uma estratégia nova. Lembro-me, bem recente, do Enéas. Mas, desnecessário recorrer à caricatura. Faz parte do próprio sistema político, com personalidades que o encarnam reservando à vergonha o farisaísmo da justitificativa da vida que levam.  Ampliando o recorte e abandonando a caricatura, tivemos mesmo em 89, na nossa primeira eleição direta para presidente, após a ditadura, Fernando Collor e Lula decidindo o segundo turno.

O “caçador de marajás” era filho de senador, neto de Ministro do Getúlio, ele próprio ex-prefeito, ex-deputado  e ex-governador da periferia política, por isso, desconhecido e apto ao super-herói midiático que vinha ao encontro do desespero nacional decorrente das expectativas frustradas de uma Nova República articulada para a transição democrática e que acabara em José Sarney e hiperinflação.
Líder sindical das grandes greves do ABC,  símbolo da redenção do povo no poder, fundador do PT, ex-candidato a governador, deputado federal constituinte, Lula ainda não havia dito - talvez por conhecê-lo há pouco por dentro - que o Congresso era uma escória composta de trezentos picaretas, todavia, não pensava muito diferente e estava ali, diante do invejoso Collor  que não tinha um equipamento de som como o dele, para enfrentar o sistema encarnado no engodo disfarçado de “caçador de marajás”.
Como se vê, a antipolítica é um recurso eficaz. O contexto hoje, aqui e no mundo,  é outro, e a rejeição à política como um espaço da ladroagem piorou a um ponto, com estímulos perigosos à disseminação de práticas fascistas, que exige responsabilidade das lideranças e forças políticas na busca permanente da relação sempre difícil, tensa, que não se esgota em palavras de ordem, tampouco no facilitário oportunista da antipolítica, entre liberdade e igualdade.
Bolsonaro é um risco não pelo eleitorado que sempre representa, mas pela esperança que passou a encarnar. Embora nada sendo de antipolítica, deputado que é há quase trinta anos, reflete um problema negligenciado pelas forças progressistas por menor, caudatário, quando não sobrevivência de um anacronismo moralista. Refiro-me à corrupção e à violência.

Não é fácil ter de reconhecer em uma experiência política, ainda que de baixo reformismo, a corrupção como a fonte de uma estratégia em que os meios não mereciam respeito, “instrumentos de classe”, perante fins de hegemonia com o objetivo de “resgatar o pobre”. Gostaria de acreditar tratar-se de uma página virada. Entretanto, a história não é mestra da vida, e, em política, nada é garantido e está dado de uma vez por todas.
Vivemos  uma conjuntura em que a violência, sobretudo na nossa Cidade, e a corrupção, generalizada no sistema político, exigem uma dimensão de coerção e controle legalmente disponível no monopólio da força weberiano que se encontra no fundamento do Estado democrático de direito da nossa Constituição Cidadã de 88.  As forças progressistas têm dificuldade com a coerção, como se o seu uso implicasse descurar as causas sociais. Compreensível. A Revolução permanece um mito. O problema é que, na hipótese remota de Bolsonaro presidente, ele não terá os escrúpulos que outros tiveram, sem base política para governar, de tentar o apoio nas FFAA e na preparação de uma recidiva ditatorial. Um risco, de fato, pois que proporcional à esperança que incorporou e que certamente se frustará quando virem que se trata de mais um engodo da antipolítica.
SRN

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O interior da Guanabara

O interior da Guanabara é muito grande. Do campo que se estende da faixa do interior paulista (desculpem-me o pleonasmo) até o sul da fazenda é compreensível a breve superioridade do 'curingão". Trata-se de uma espécie de Goiás estendido com variação de sotaque. Quando estive em Pirinópolis, a imagem estava dada do que quero dizer: uma pick-up Mitsubishi com um par de chifres no capô e dois berrantes como retrovisores, um de cada lado (fora o som estourando Leandro&Leonardo os paralelepípedos da cidadezinha do tomate inscrita na memória do ciclo do ouro goiano).
Como se vê, a explicação da pesquisa do datafolha, publicada pelo Globo, não precisa de muita exegese.
SRN